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GAVIÕES

A história que começou com uma camiseta feminina e acabou se tornando símbolo da luta das mulheres por espaço e reconhecimento na maior torcida organizada de São Paulo

Ser corinthians é viver com o coração a mais de mil
É ser parte da

torcida mais fiel desse Brasil
Quem falou que futebol não era coisa de mulher

só não enxerga

quem não quer, mas é bem vindo quem quiser

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Segundo o site oficial do Grêmio Gaviões da Fiel Torcida, a entidade é a maior torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista e também é considerada a maior organizada do Brasil. ​Quando a torcida se reúne, a dimensão dessa presença toma forma no chamado mar negro - nome dado à multidão alvinegra que ocupa arquibancadas, ruas e quadras sob as cores da Gavião.

Essa dimensão aparece na forma como a torcida se organiza para além da sede social. Com 11 subsedes - dez distribuídas por diferentes regiões do Brasil e uma no Japão, os Gaviões expandem sua presença para outros territórios e mantêm uma rede que conecta torcedoras corinthianas dentro e fora do país.​​

Use o zoom no gráfico

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É a partir dessa dimensão que a rotina da torcida ganha forma na capital paulista. 

 

 

 

Em São Paulo, essa vivência se reforça em torno da quadra da Gaviões da Fiel, especialmente em espaços como o Barril Bar, popularmente conhecido como o

Bar da Neide, na Rua dos Italianos, no Bom Retiro. Administrado há sete anos pela Edineide Carneiro do Santos - a Neide - o local funciona como um ponto de encontro para torcedores em dias de jogo, especialmente nos clássicos paulistas e em partidas decisivas. 

 


Segundo ela, o movimento se intensifica já no período de carregamento de ingressos, quando torcedores começam a formar filas dias antes dos jogos:

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​​— Começa a chegar gente na segunda-feira para o jogo na quarta​ (Neide)

RELATOEntrevista com Dona Neide
00:00 / 01:23

​​Em finais e semifinais, independentemente do horário ou local da partida, o fluxo é constante e o bar se torna extensão da experiência coletiva da torcida.

 

​​Mesmo em jogos fora de casa, quando as caravanas partem de madrugada, o bar segue como referência no bairro.

Reprodução: Fabio Soares / Futebol de Campo 

Nesse espaço, a presença feminina também se insere em uma lógica de pertencimento marcada, segundo Neide, pelo respeito:  ​​

O movimento dos torcedores

no Bar 

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Reprodução: Acervo / Dona Neide

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O VÍDEO​​

​​Se o Bar da Neide é o coração corintiano da Rua dos Italianos, a 180 metros dali, a estrutura se formaliza.

Bom Retiro,
região central de São Paulo

A caminhada entre o balcão da Neide e o portão da sede da Gaviões da Fiel é curta no mapa, mas simbólica na rotina do torcedor.

UM DIA

PARA MULHERES

​​A programação especial em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres foi realizada no dia 7 de março, na sede dos Gaviões da Fiel, antecipando a data oficialmente celebrada em 8 de março. O espaço reuniu atividades voltadas ao público feminino, com serviços de beleza e saúde.

 


A sede da Gaviões da Fiel, ficou tomada ao longo do dia: casais, famílias e crianças marcaram presença, com brinquedos infantis espalhados pelo espaço e samba tocando no meio da quadra. Do lado de fora, havia barracas de comida e bebida no entorno. Ao lado da sede, as paredes do bar exibe quadros com camisas autografadas e peças do Corinthians.

 

Em frente, a loja oficial permaneceu cheia durante boa parte do evento.​

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Programação especial em celebração ao

Dia das Mulheres

 

 

A atuação social da Gaviões da Fiel também passa por iniciativas voltadas ao acolhimento e suporte das mulheres dentro da torcida. É nesse contexto que atua a Secretaria da Mulher dos Gaviões da Fiel, setor que recebe relatos, orienta torcedoras e busca encaminhar diferentes demandas que surgem no dia a dia da organizada.

 


Responsável pela Secretaria, a psicóloga Isabela Caetano, de 34 anos - sendo 15 deles dentro da torcida, relatou que seu trabalho no setor é baseado principalmente na escuta. Segundo ela, as mulheres chegam com diferentes histórias, queixas e situações e, a partir desse primeiro contato, ela avalia quais caminhos seguir.

— Só de ter um dia especial para nós mulheres já é muito legal dentro da torcida, mas eu acho que para além disso, ações e iniciativas que são voltadas para saúde, bem-estar e educação é incrível porque é um fator protetivo [...] como se dentro da torcida a gente tivesse essa certeza de que existe, para muito além do respeito, essa proteção mesmo quando uma mulher necessita de ajuda, necessita de amparo (Isabela)

Bastidores da Gaviões

Registros da sede, do entorno e de personagens que fazem parte do cotidiano da torcida organizada 

UMA CAMISA

Por trás da harmonia dos eventos, existe uma história de resistência que começou com um pedaço de tecido. Uma simples camiseta feminina foi criada para que amigas pudessem se identificar no meio da maior organizada de São Paulo. ​O coletivo As de Preto surgiu há cerca de quatro anos, a partir de conversas em grupos de redes sociais entre amigas e integrantes da torcida organizada, Claudia e Glaucia Fênix, que, nesta reportagem, optaram por não divulgar seus sobrenomes.

A iniciativa começou com a criação de um pequeno lote de camisetas em modelo feminino - cerca de dez unidades - para uso nos jogos e encontros da torcida, em um contexto em que as lojas oficiais da organizada na época, não ofereciam peças voltadas ao público feminino.

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Modelo desenvolvido para suprir a ausência de camisas femininas 

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Reprodução: Instagram / @asdepreto1910sccp 

— As roupas são completamente masculinas. A gente tem que andar igual a eles. Eu só dizia que não tinha uma roupa para a gente, que não existia um modelo feminino. Eu só queria fazer isso. Quase morri por conta disso. A gente recebe insultos e cara feia há quatro anos

(Claudia)

O caso escalou até a diretoria da organizada e os desdobramentos persistem até hoje. A permissão veio durante o mandato do ex-presidente Padinho - que liderou de 2021 a 2024 - no que pode ter sido uma das decisões mais polêmicas da gestão dele para a diretoria da época, segundo elas. No entanto, após o fim do mandato, Claudia foi chamada novamente para conversar com a nova liderança, mas dessa vez a resposta foi negativa.

 


A intenção das integrantes nunca foi afrontar a entidade, mas sim criar um espaço de inclusão para as mulheres. Para Glaucia, o que começou de forma despretensiosa tomou proporções inesperadas devido à resistência interna.

A Gaviões da Fiel foi fundada em 1969 e, por mais de 50 anos, existiu sem a participação ativa de mulheres, sendo uma das torcidas mais tradicionais de São Paulo. Dos seus mais de 140 mil sócios, mais de 40% são mulheres. Mesmo sendo quase metade da torcida, elas ainda não tem voz ativa nas decisões lá dentro. 

Essas regras nem sempre estão escritas, mas funcionam como uma tradição dentro da torcida. Existe uma separação do que as mulheres podem ou não fazer nos estádios e na sede, como funções de liderança e o cuidado com os patrimônios - bandeiras e instrumentos - ainda são vistos como tarefas exclusivas dos torcedores homens da Fiel.

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— Na bateria, a mulher só pode tocar alguns instrumentos específicos. 

Outras mulheres não podem tocar o restante. 

Bandeirão, bandeira, faixa... 

A mulher não toca no patrimônio.

Só os homens podem pôr a mão

(Claudia)

Reprodução / Site Meu Timão

Apesar da ideia, ainda muito difundida, de que o futebol pertence majoritariamente aos homens, os números nas arquibancadas revelam uma realidade mais complexa. Em 2020, um levantamento do Ibope Repucom apontava que as mulheres representavam 53% da torcida corinthiana, enquanto os homens correspondiam a 47%.

Nos anos seguintes, embora os percentuais tenham se alterado, a participação feminina permaneceu expressiva. De acordo com a pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada em 2025, as mulheres passaram a representar 43% da torcida do Corinthians, contra 57% de homens.

Com cerca de 2,9 milhões de seguidores, o perfil oficial do Instagram da Gaviões da Fiel mantém uma rotina ativa, chegando a realizar cerca de quatro publicações diárias. O conteúdo prioriza a agenda da organizada: convites para jogos na sede, sorteios de patrocinadores e divulgação da loja oficial. Além do futebol, a página atua como um canal comunitário, publicando recorrentemente notas de falecimento de sócios, o que reforça o vínculo de pertencimento entre os membros

No recorte de 50 postagens, durante o mês de fevereiro e março de 2026, a presença feminina em destaque aparece em 7 publicações, com forte concentração na semana do Dia Internacional das Mulheres.

 

 

Um dos destaques foi a história da Tia Geni, uma torcedora histórica do Corinthians e sócia da torcida organizada, que foi homenageada em um mosaico no jogo contra o Cruzeiro, em 2024, por ser pioneira ao frequentar arquibancadas nos anos 1950, rompendo barreiras de gênero.

Fora de março, a participação feminina no feed torna-se pontual, ligada a funções técnicas, como no Carnaval, ou em ações do departamento social

Em contraste com o tom institucional da página oficial, o coletivo As de Preto utiliza as redes sociais para construir uma identidade focada na torcedora.

NÃO É NÃO

Na análise do mesmo período em 50 postagens, 96% delas trazem mulheres como protagonistas ou abordam pautas de gênero e com a representação de mulheres na capa 


Em março, a página foi ocupada pela campanha “NÃO é NÃO”. A estratégia de repetição visual busca marcar posição diante do cenário nacional de segurança pública: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou quase 1.600 feminicídios em 2025, o maior número da última década.

Para o coletivo, as publicações funcionam como um arquivo de resistência. Onde o "procedimento" tradicional impõe limites à atuação feminina no patrimônio da torcida, como as bandeiras, por exemplo. 

Manifestação no mês das mulheres

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O pequeno avanço incentiva Claudia e Gláucia a seguirem unidas na luta pelo direito de usar a peça e pelo reconhecimento das torcedoras dentro da Gaviões da Fiel.


 


A luta delas não é para derrubar a tradição da torcida, mas para que as mulheres também façam parte dela com voz, respeito e, acima de tudo, identidade própria. Afinal, em uma torcida com mais de 140 mil sócios, o "ser Gaviões" também tem rosto, e camisa, de mulher.

RELATOEntrevista com As de Preto
00:00 / 03:56

—Tudo isso por conta de um time. [..] Tenho amigos que dizem que eu sou mais Gaviões do que Corinthians. Mas não é assim, eu sou mais Corinthians do que Gaviões. Só que a entidade faz parte da gente.

 

​(Claudia)

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