
MANCHA
Costurando bandeirões, organizando caravanas e ocupando arquibancadas, as torcedoras do Palmeiras fazem parte da construção diária da organizada
Dez dias de costura e três de pintura. Enquanto o mundo do futebol focava na força das arquibancadas, o maior símbolo de grandeza da Mancha Verde - o bandeirão que entrou para o Guinness Book em 1992 - ganhou vida pelas mãos de apenas duas mulheres. O fato, que poderia ser apenas um detalhe técnico, é na verdade a síntese de uma presença que sempre esteve lá: o toque feminino na construção da maior torcida organizada do Palmeiras.
— A torcida organizada é um reflexo da sociedade (Natália)
É com essa definição que Natália do Santos, 30 anos, resume a presença feminina na Mancha Verde, a maior torcida organizada do Palmeiras. Integrante do setor social da entidade, Natália observa que presença feminina cresce cada vez mais em diferentes espaços, mas as decisões finais ainda permanecem concentradas nas mãos dos homens.
Na Mancha desde 2016 - uma paixão herdada do pai - Natália testemunhou o crescimento da bancada feminina.
— O Palmeiras justifica tudo; cura coisas que ele não causou e as mulheres também encontram refúgio nesses lugares. Estamos cada vez mais empoderadas no sentido de poder ocupar esses espaços e também de criar novos, caso não me sinta confortável onde estou (Natália)
MANCHA ALVI-VERDE
Fundada em 11 de janeiro de 1983, a Mancha Verde nasceu da fusão de três torcidas organizadas do Palmeiras: Império Verde, Inferno Verde e Grêmio Alviverde. A união surgiu da necessidade de criar uma representação sólida e respeitada para a coletividade palmeirense, especialmente em um período de forte rivalidade nas arquibancadas.
O nome e o símbolo da entidade foram inspirados no personagem Mancha Negra, da Disney, mas adaptados para as cores verde, branco e vermelho - uma homenagem direta à bandeira da Itália e às raízes do clube.
A entidade se destaca em momentos de pressão na política interna do clube e por sua logística, que movimenta milhares de sócios em caravanas e protestos. Essa força é o que a define no imaginário popular: uma torcida que não apenas assiste ao jogo, mas que busca ser protagonista da história do Palmeiras.
Em segundo plano, o histórico de brigas entre a Mancha Verde e as outras grandes organizadas de São Paulo é antigo e bem conhecido. Entre confrontos e alianças, as relações entre essas instituições criaram um mapa complexo de "aliadas" e "rivais", que acaba ditando o ritmo das ruas em dias de jogo.
Por conta disso, muita gente ainda carrega a visão de que as organizadas servem apenas para brigar - um estigma alimentado, em grande parte, pela forma como elas são retratadas na imprensa tradicional. No entanto, para quem está lá dentro, a leitura é outra.
—Ninguém briga pelo Palmeiras. O Palmeiras é uma vírgula. As pessoas brigam pela Mancha e pelo que ela representa. A violência está na sociedade; o problema é que pegamos um pequeno recorte e falamos: 'Nossa, eles foram lá e se mataram, se bateram'. Mas, se formos olhar os dados diários, todo dia alguém apanha, alguém morre e não vemos esse mesmo alarde. Se houvesse essa atenção toda para o todo, já teríamos políticas públicas muito mais resolutivas (Natália)

Atualmente, a cidade de São Paulo é a única que não permite torcidas rivais em clássicos no Brasil. Isso se deve ao confronto violento entre palmeirenses e corintianos no bairro do Tatuapé, em 2016 - que resultou na morte de um pedestre que sequer estava envolvido na briga. Assim, o Ministério Público e a Federação Paulista decidiram banir os visitantes dos clássicos.
Para muitas mulheres, a mudança no ambiente dos estádios trouxe uma nova percepção de segurança, encorajando a ocupar as arquibancadas com mais frequência. No entanto, para aquelas que vivem o dia a dia das organizadas, a realidade é mais complexa: o fim dessa lei e a volta das torcidas rivais nos clássicos ainda são vistos como um sonho distante, dividindo o desejo de reviver a festa completa do futebol com a cautela que o histórico de violência exige.
O ESPAÇO
DA TORCEDORA
O protagonismo feminino na confecção do maior bandeirão da torcida não foi um fato isolado, mas o início de uma trajetória de ocupação de espaços. Hoje em dia, as mulheres tomam conta das áreas estratégicas como o operacional, o criativo, o social e o financeiro.
Essa presença passa despercebida aos olhos da arquibancada, mas onipresente no digital: a comunicação da entidade, que alcança quase 1 milhão de seguidores no Instagram, é realizada por mulheres: do design das publicações à redação das legendas. No entanto, o "teto de vidro" é nítido: ainda não há expectativas para lideranças máximas, como a presidência ou vice-presidência.
— Parece que as mulheres já vêm com o ‘modo cuidar’ ativado. Na Mancha existe a frase: exceto briga, a mulher pode fazer qualquer outra coisa, não há uma proibição. Por outro lado, nenhuma chegou no topo (Natália)
Essa pequena abertura permite que as torcedoras manuseiem os patrimônios da organizada, como instrumentos da bateria, bandeirões e faixas - itens que, historicamente em outras torcidas, já foram restritos aos homens.
Inclusive, a Mancha chegou a homenagear uma de suas torcedoras mais fiéis, uma senhora de 80 anos chamada Vene, que teve sua imagem eternizada em uma das bandeiras oficiais da torcida, quebrando a hegemonia masculina no espaço visual das organizadas. Até 2025, a torcedora frequentava os bares nos arredores do Allianz Parque.
A ocupação de espaço estende-se também às caravanas. Natália recorda sua primeira viagem internacional, para a Argentina: em três ônibus com cerca de 135 pessoas no total, apenas 10 eram mulheres.
— É perrengue atrás de perrengue, mas é incrível. Quando digo que não há diferenciação, é porque ali não existe pobre ou rico. No ônibus, o objetivo é um só: ver o Palmeiras. Tudo é de todos, tudo se compartilha. É uma experiência válida para qualquer pessoa que ame o clube de verdade”, conclui a torcedora (Natália)
A Mancha Verde conta com mais de 150 mil sócios cadastrados e diversas subsedes no Brasil e no exterior, incluindo países como Japão, Inglaterra, Espanha e Estados Unidos.
Mas, assim como na sociedade em geral, fazer parte de um grupo majoritariamente masculino traz suas negatividades. Nesse cenário, o respeito não é direcionado à mulher enquanto indivíduo ou torcedora autônoma, mas sim como uma figura que precise de uma outra presença para ser respeitada e não importunada.
VERDONNAS
Assim como nas outras organizadas de São Paulo, existem coletivos somente femininos que vem surgindo e ganhando mais força ao longo dos anos. Porém, não são vistos com outros olhos pela Mancha e, se não estiverem ultrapassando limites, podem servir como apoio para trazer mais mulheres para a torcida alviverde.
— A Mancha é a principal torcida do Palmeiras, então o que ela pode contribuir, ela contribui. Primeiro vem o respeito. Se você veste a mesma camisa que eu, do Palmeiras, não teremos problemas. Vamos ajudar no possível [...] É perrengue atrás de perrengue, mas é incrível. Quando digo que não há diferenciação, é porque ali não existe pobre ou rico. No ônibus, o objetivo é um só: ver o Palmeiras. Tudo é de todos, tudo se compartilha. É uma experiência válida para qualquer pessoa que ame o clube de verdade (Natália)
O Verdonas surgiu por iniciativa de Tainá Shimoda e outras torcedoras após duas palmeirenses serem confrontadas por um grupo de corinthianos na Linha Vermelha do metrô - que conecta as estações Palmeiras-Barra Funda e Corinthians-Itaquera. Na ocasião, as torcedoras foram expulsas do vagão pelo grupo alvinegro.
Diante do episódio que viralizou nas redes sociais, outras mulheres que frequentam o estádio começaram a se mobilizar para organizarem trajetos em conjunto, visando garantir a segurança de todas.
— Acabou que a gente conseguiu juntar, inicialmente, umas 11 pessoas. Quando estamos juntas, nos sentimos mais seguras. Ouvíamos muitos relatos de mulheres que tinham medo. A partir do movimento, várias integrantes fizeram amizades e passaram a frequentar o estádio. Logo no inicio, nós tivemos alguns problemas. Muitas mulheres envolvidas em organizada falaram que a gente era um movimento inútil porque a mulher já podia estar no organizado (Tainá)
O Verdonnas ganhou visibilidade nacional por meio de matérias exclusivas no Globo Esporte e no Esporte Espetacular entre 2018 e 2019, o que subiu o número de integrantes. Segundo a fundadora, o grupo de WhatsApp chegou a reunir mais de 500 mulheres. Atualmente, no entanto, o movimento não realiza mais reuniões presenciais; após a pandemia, o grupo sofreu um desengajamento e encerrou suas atividades coletivas.
— Embora hoje exista muito mais espaço, o estádio ainda é enxergado como um ambiente muito violento, e esse estigma recai sobre a mulher com muito mais força do que sobre qualquer outra pessoa. No fim das contas, a questão é ocupar esses espaços para mostrar que todos fazem parte do mesmo lugar e que terão de aceitar a nossa presença

A segurança sempre foi o principal pilar defendido pelo coletivo.
Reprodução: Instagram / @verdonnas
— Hoje em dia, sofremos violências veladas que são mais difíceis de combater. Uma vez, eu estava na arquibancada e, durante uma discussão, um homem levantou a voz e pôs o dedo na minha cara. Fiquei tão chocada que travei. Mas, como tinha amigos comigo, eles foram bater boca de volta e o homem abaixou o tom. Isso é violência velada. É por isso que eu acho que o estádio segue sendo um ambiente não totalmente convidativo para as mulheres; ainda traz um problema social muito forte
Atualmente, existe apenas um rastro digital do Verdonnas nas redes sociais, que funciona como um arquivo de um movimento em pausa. Um levantamento rápido em sua página oficial no Instagram revela o impacto do hiato mencionado por Tainá Shimoda.
No total, são 236 publicações e uma base de mais de seis mil seguidores que ainda interagem com o conteúdo passado. O último post, datado de novembro de 2022 - há exatas 184 semanas - tem comentários questionando o fim do movimento e o motivo para a suspensão das publicações. Apesar disso, o fluxo de postagens sempre foi irregular. Ao analisar as publicações, é possível identificar longos períodos em que não houve nada e semanas onde haviam publicações todos os dias.
O acervo da página ainda preserva o DNA do grupo, com fotografias de mulheres ocupando as arquibancadas ostentando a bandeira do coletivo e uma forte defesa do futebol feminino. Um dos destaques da página era o quadro "Verdonnas na Escrita", espaço onde as próprias integrantes publicaram textos autorais, reforçando que o movimento buscava não apenas ocupar o cimento do estádio, mas também o debate intelectual sobre ser torcedora.
Apesar das vozes que tentam silenciá-las e dos episódios de violência que ainda mancham a rotina do futebol paulista, a mensagem final das torcedoras é de persistência. Para as integrantes da Mancha Verde e de coletivos como o Verdonnas, a arquibancada é um território de direito, conquistado na base da costura de bandeirões, da gestão financeira e da presença física, jogo após jogo.
O caminho para um estádio verdadeiramente democrático ainda é longo, mas a estratégia já está traçada: a ocupação inegociável. Como define Tainá Shimoda, comunicadora do Verdonnas, o objetivo final vai além de apenas assistir a uma partida:
— No fim das contas, é ocupar os espaços para mostrar para as pessoas que todo mundo faz parte do mesmo lugar. Eles vão ter que aceitar que a gente está lá




