
JOVEM
Em uma torcida marcada pela tradição, mulheres ganham força nos bastidores e no
ritmo da bateria
O protagonismo feminino na Torcida Jovem do Santos
Diferente de outras grandes torcidas organizadas do país, onde mulheres ainda enfrentam restrições para manejar bandeiras ou tocar instrumentos, a Torcida Jovem do Santos (TJS) se consolida como um espaço de vanguarda. Segundo relatos de integrantes, a presença feminina em cargos de diretoria e setores estratégicos não é um fenômeno recente, mas uma tradição que remonta à "velha guarda" da entidade.
Para Giovanna Gomes, 25 anos, integrante ativa da torcida Jovem desde que nasceu, a representatividade feminina tem crescido exponencialmente em frentes diversas, como as caravanas para jogos, a bancada e a bateria.
— Temos muito espaço.
A cada ano que passa, ocupamos mais lugares e as oportunidades aumentam (Giovanna)
Na escola de samba da Torcida Jovem - que, embora não tenha ligação direta com a organizada - se reflete na diversidade de funções ocupadas por mulheres, que transitam entre diferentes setores e ganham destaque em posições de visibilidade dentro da bateria e dos desfiles. Em 2026, a escola leva para a avenida o enredo “Axé: Raízes e ritmo da cultura afro-baiana”, explorando elementos históricos e culturais do país a partir das tradições afro-brasileiras.
Luciana Rodrigues, de 31 anos, integra a torcida desde 2012 e a escola de samba desde 2011, onde atualmente ocupa o cargo de Musa de Bateria, após passar por diferentes funções como carro alegórico, chefe de ala e passista. Além disso, frequenta os jogos semanalmente junto com a TJ.
— Eu sou a Musa que está na frente da bateria, mas eu posso tá lá na arquibancada gritando, incentivando meu time, sem nenhum preconceito. [..] mulher pode estar na arquibancada, mas também pode estar desfilando, não importa a roupa (Luciana)

Clique no vídeo para conhecer mais sobre a trajetória de Giovanna e Luciana dentro da Jovem
GESTÃO
DA JOVEM
Setores de Comunicação e Social, por exemplo, são dominados pelas mulheres da Jovem. Criadas em 2018, essas áreas apresentaram um desenvolvimento acelerado e, atualmente, contam com mais de 20 mulheres coordenando as decisões estratégicas.
A própria estrutura institucional da torcida ajuda a explicar esse cenário. Com 57 anos de história, a Torcida Jovem do Santos se apresenta não apenas como um agrupamento de torcedores, mas como uma organização consolidada, com identidade própria e lógica de funcionamento bem definida.
No ambiente digital, essa identidade se traduz em números expressivos: são mais de 250 mil seguidores e mais de 4,6 mil publicações no perfil oficial do Instagram, que funciona como um lugar de comunicação para a torcida. Ali, se concentram desde a organização de caravanas e divulgação de jogos até a comercialização de roupas da organizada e ações do Departamento Social da Jovem.
O Departamento Social é o setor que mais humaniza o perfil. Publicações sobre a distribuição de marmitas no bairro do Glicério (SP) e no Guarujá (Baixada), além da organização da Páscoa Solidária e outros eventos.






Além das arquibancadas
Reprodução / Instagram torcidajovem_oficial
No recorte das publicações entre o mês de abril e março deste ano, a participação feminina ganha grande protagonismo durante a semana do Dia Internacional da Mulher. Em postagens que celebram a data, a Jovem reforça o discurso de que "lugar de mulher é com o Santos", citando a presença feminina em cargos de organização, na bateria e nas caravanas. Nessas postagens, o engajamento é majoritariamente positivo e as críticas ao desempenho do time dão espaço a mensagens de apoio e respeito à atuação da torcida.
Recentemente, a torcida do Santos passou por um período de forte tensão. A Torcida Jovem convocou protestos na Vila Belmiro contra a gestão do presidente Marcelo Teixeira e do diretor de futebol Alexandre Mattos. O clima pesou devido à crise técnica do time no Campeonato Paulista e à situação da equipe na briga contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro.
Antes de ir para a rua, a Torcida Jovem soltou uma nota sobre uma reunião que teve com o Ministério Público, a Polícia Militar e outras organizadas. O encontro serviu para definir a logística e a segurança após a Federação Paulista de Futebol - FPF - marcar jogos dos quatro grandes clubes do estado de forma simultânea. A pauta foi justamente traçar rotas para organizar o deslocamento da torcida e evitar qualquer tipo de confronto.
Nas imagens divulgadas posteriormente pela organizada, destaca-se o que os próprios torcedores chamam de “mar branco”.
Reprodução / Instagram @jovemania_oficial
No entanto, a partir da apuração feita nas entrevistas das reportagens, os relatos mostram que, embora exista um discurso institucional que incentiva e amplia a participação feminina, a linha de frente desses atos e a condução das mobilizações continuam sendo um espaço majoritariamente masculino.
O artigo Mulheres, trabalho e lazer no Brasil (2023), da Revista Estudos Feministas, investiga as barreiras de gênero no tempo livre, traduz isso em dados: o estudo aponta que 37% das mulheres não conseguem ter momentos de lazer por falta de tempo, além de, quase sempre, ficam sobrecarregadas com tarefas domésticas e de cuidado.
Diferente de outras agremiações que criam "departamentos femininos" isolados, a TJS optou por um caminho de integração total. Ainda segundo a comunicação da torcida, as divisões exclusivas para mulheres chegaram a ser testadas no passado, mas não prosperaram porque o desejo das torcedoras não era a separação, e sim o respeito e a voz ativa nos espaços já existentes.
— Entendemos que as mulheres não precisam de um departamento exclusivo; elas devem estar em todos os departamentos [..] buscamos garantir que as meninas tenham voz em cada setor que integram. Se criássemos um 'departamento feminino', ele cuidaria do social?
Da comunicação? Esses setores já existem. O que buscamos foi justamente dar capilaridade à atuação delas
Portanto, elas passam pelos mesmos processos e desafios que os homens ao tentar uma vaga na bateria ou em qualquer outro departamento. Apesar disso, ainda existem situações em que as mulheres não podem estar presentes, dependendo da partida, mulheres e crianças não podem ir nas caravanas da Jovem. O contexto é levado em conta e se a chance de conflitos for alta, elas são proibidas de entrar nos ônibus.

Crianças também marcam presença entre os alvinegros da Torcida Jovem

Torcedores acompanham a partida na Vila Belmiro durante mais uma noite de apoio ao Santos

Torcida reuniu bandeiras e sinalizadores no tradicional corredor de fogo antes do jogo

Crianças também marcam presença entre os alvinegros da Torcida Jovem
Reprodução / Instagram @galeriasantista
Além das arquibancadas
Ainda assim, a organizada do Santos está entre as mais liberais sobre a participação das mulheres e sempre busca reafirmar que o lugar da santista é onde ela desejar: seja decidindo pautas na diretoria ou regendo o ritmo da arquibancada com o surdo de primeira.
A TRAJETÓRIA
DAS SEREIAS
No dia seguinte da primeira postagem no Instagram, o recém-criado grupo de WhatsApp já contabilizava cerca de 70 mulheres. Era 21 de janeiro de 2019, e o movimento Bancada das Sereias oficializava sua chegada ao ambiente digital com um propósito: garantir que nenhuma torcedora santista precisasse caminhar sozinha até a Vila Belmiro.
A adesão rápida indicava uma demanda reprimida. Em quatro anos, o coletivo feminino consolidou uma base de mais de 5,6 mil seguidores, articulando um discurso que transitava entre a reivindicação por maior participação das mulheres no futebol e ações de cunho social. Entre elas, uma mobilização para arrecadação de roupas e alimentos às vítimas da tragédia de Brumadinho.
Em fevereiro de 2019, uma publicação reforçou o posicionamento já adotado pelo coletivo. Com a frase “torça como uma mulher”, acompanhada por 17 logotipos de outros coletivos femininos - entre eles, coletivos abordados na reportagem, como Verdonnas e São Pra Elas
A legenda destaca que, embora separadas por escudos e cores, essas mulheres compartilham valores comuns, como respeito, empatia e amor pelo futebol.
No mês seguinte, o tema ganhou visibilidade na imprensa. O Globo Esporte produziu reportagens especiais que mostram relatos de torcedoras sobre os obstáculos enfrentados, especialmente o assédio nos trajetos até os estádios.
Em 2020, em uma publicação, o coletivo relatou ter sido convidado pela Federação Paulista de Futebol para participar do lançamento do movimento “Elas no Estádio”. Segundo o relatório de gestão da Federação, a iniciativa nasceu da união com os 16 clubes participantes do Paulistão Sicredi 2020 para ampliar a presença de mulheres nos jogos em São Paulo.
Além de representar um movimento feminista, a Bancada das Sereias também manifesta, em suas publicações, apoio a outras causas. Entre elas estão pautas antirracistas - com destaque para 2023, em meio aos episódios de racismo sofridos por Vinícius Júnior no Real Madrid - além do apoio a causas LGBTQIA+, posicionamentos contrários à ditadura e conteúdos de conscientização sobre o câncer de mama.
Atualmente, o perfil @bancadadassereias mantém o histórico de 270 publicações, mas não apresenta novas atualizações desde o segundo semestre de 2023.

Durante a produção desta reportagem, buscou-se o contato com integrantes do movimento
Uma das participantes aceitou inicialmente conceder entrevista, porém, as comunicações posteriores não foram respondidas
Reprodução: Marcelo Martins / Turismo Santos
Os dados disponíveis limitam-se aos registros e às reportagens jornalísticas publicadas entre 2019 e 2023.