
INDEPENDENTE E DRAGÕES
Em uma torcida marcada pela tradição, mulheres ganham força nos bastidores e no
ritmo da bateria
O ano de 2013 ficou marcado por acontecimentos históricos de grande impacto. No cenário global, o Papa Bento XVI renunciou ao pontificado - algo que não ocorria há quase 600 anos, resultando na eleição do argentino Papa Francisco. O mundo também se despediu de Nelson Mandela, que faleceu aos 95 anos. No Brasil, os protestos contra o aumento de R$0,20 nas passagens de ônibus em São Paulo desencadearam a maior onda de manifestações da história recente do país, enquanto, na cultura pop, Anitta estourou nacionalmente com o hit "Show das Poderosas".
Enquanto isso, no mundo do esporte, o São Paulo FC vivia um momento delicado. O Tricolor flertou com a zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro e sofreu uma dura eliminação nas oitavas de final da Libertadores, após uma goleada por 4 a 1 para o Atlético-MG, no Arena Independência, em Belo Horizonte. O clube chegou a amargar uma sequência de 12 jogos sem vencer. O Tricolor registrou as maiores médias de público do Brasileirão daquele ano, com uma marca de cerca de 26 mil pagantes por jogo (e picos de mais de 50 mil pessoas em partidas decisivas no Morumbis), segundo informações disponibilizadas pelo próprio clube, em 2014.
E foi diante desta crise de 2013, que a torcedora Karoline Rodrigues, conhecida como Karol, de 32 anos e integrante da Dragões há 12 anos, reformulou sua vida para acompanhar o clube para sempre.
— Eu já nasci muito envolvida com o São Paulo; foi algo que me conquistou desde sempre. Não consigo me lembrar de uma Karol que não fosse completamente apaixonada pelo clube. No momento em que começou a fase ruim do time, decidi me tornar sócia-torcedora. Ali, entendi que o torcedor no estádio realmente faz a diferença, eu não tinha essa percepção antes (Karol)
Conheça mais sobre a história de Karol Rodrigues

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DUAS CAMISAS,
UMA LUTA
Mesmo estando lado a lado na Arquibancada Sul (também conhecida como setor laranja pelos torcedores mais antigos) as duas maiores organizadas do SPFC possuem visões e propósitos muito diferentes.
De um lado, a Dragões da Real é reconhecida por sua organização administrativa e pelo espetáculo visual. A organizada foca no apoio incondicional através de mosaicos e festas coreografadas. Do outro lado a Torcida Independente, que construiu uma identidade marcada pela cobrança direta ao clube e pela postura mais combativa nas arquibancadas.
Dragões
Na década de 1970, segundo o site oficial da organizada, o São Paulo FC concentrava diversas torcidas organizadas, como a Torcida uniformizada do Sao Paulo (a TUSP) - considerada a primeira torcida organizada do país - além de grupos como Independente, Força Total, Juventude Tricolor, Pantera Tricolor, Caveira Tricolor, Dragões do Mais Querido, Real Força Inflamante Tricolor e Coração Tricolor. Entre elas, as três últimas decidiram se unir para formar uma nova organizada.
Inicialmente, a ideia era criar um novo nome, como “Torcida Jovem Tricolor”, mas a diretoria optou por manter elementos das organizadas originais. Assim surgiu a Dragões da Real Torcida Jovem. “Dragões” foi mantido pela simbologia do animal e pela presença de integrantes de origem oriental, enquanto “Real” fazia referência ao perfil da torcida são-paulina.
Além do apoio ao São Paulo dentro das arquibancadas, a Dragões da Real também realiza ações sociais ligadas à torcida. Entre as iniciativas estão campanhas de doação de sangue, projetos que levam crianças ao estádio pela primeira vez e ações solidárias promovidas por subsedes da organizada em diferentes cidades do país.
O aumento na presença feminina e no consumo de materiais oficiais da Dragões é perceptível desde 2014, impulsionado por uma nova geração de jovens torcedoras que reivindicam seu espaço no dia a dia da entidade. Segundo o responsável pela comunicação da Dragões da Real, Lucas Silva Ramos, o contingente feminino já soma cerca de 200 mulheres entre todas as sedes, com maior concentração na capital paulista. A subsede internacional da Irlanda, é a única que tem uma mulher na liderança.
Além de envolver a própria família, Ka Rodrigues expandiu o horizonte da torcida tricolor para muitas outras mulheres por meio das redes sociais. A torcedora criou uma plataforma para documentar o cotidiano da arquibancada e sua rotina nos estádios.
— Pós-pandemia, comecei um vlog no YouTube. Gravei vários jogos porque era algo que não existia: não havia uma mulher da Dragões que mostrasse a vivência real na arquibancada. Muitas mulheres se aproximaram e se tornaram minhas amigas por causa do canal (Karol)
Independente
Fundada oficialmente em 1972, após uma dissidência da antiga TUSP durante uma caravana da Libertadores, a organizada surgiu defendendo uma atuação mais independente em relação ao São Paulo FC.
Segundo o pesquisador Carlos Alberto Máximo Pimenta, em sua dissertação de mestrado de 2009 chamada “A festa como transgressão das torcidas organizadas: uma etnografia da Torcida Tricolor Independente”, a organizada também funciona como um espaço de construção de identidade coletiva para jovens torcedores, através de elementos como virilidade, pertencimento e ocupação urbana. Estruturada em “bondes” regionalizados, a torcida organiza caravanas e deslocamentos coletivos até o Morumbis.
Mais que uma sede, nossa casa
A torcedora Jessica Nogueira, de 34 anos, integrante da Independente e amiga próxima de Karol, criou o podcast Resenha São Paulina, focado exclusivamente em comentar o dia a dia do Tricolor.
Assim como toda plataforma que expõe opiniões sobre futebol no ambiente digital, Jéssica sofreu críticas severas. Um dos episódios aconteceu durante as discussões sobre a contratação do meia Oscar pelo São Paulo - jogador revelado pelo clube e frequentemente associado à identidade tricolor por parte da torcida.
No entanto, ao discordar desse discurso durante um episódio do podcast, a torcedora passou a receber ataques que ultrapassaram o debate esportivo e atingiram diretamente sua condição de mulher.
— Foi na época da contratação do Oscar. Falavam muito que ele tinha uma identidade com o São Paulo, algo que eu não enxergava. Então, publicamos um corte do podcast defendendo nossa opinião. Dois dias depois, anunciam a contratação dele e recebemos uma enxurrada de comentários: 'deviam estar lavando louça', 'não sabem nada de futebol', 'não entendem'. Foram muitas críticas e xingamentos pesados. [...] Tivemos que privar os comentários no TikTok porque estava saindo do controle (Jéssica)
A frase estampa a aba da sede oficial da organizada, localizada em frente ao estádio do São Paulo. O espaço funciona como ponto de encontro antes das partidas, reunindo muito samba, bandeiras e centenas de torcedores vestidos com as cores da organizada.
No dia 14 de abril de 2026, a reportagem acompanhou a movimentação da torcida antes da partida contra o O’Higgins, do Chile, pela Copa Sul-Americana.
Nos arredores do portão 4 do Morumbis, torcedores ocupavam a entrada da sede da Independente enquanto bandeiras eram balançadas diante de um palco montado no local, que reunia dezenas de são paulinos horas antes da partida. Segundo o repórter Ricardo Magatti, do Estadão, 19.990 torcedores acompanharam a vitória do São Paulo por 2 a 0 naquela noite, com gols de Luciano e Artur.
A resistência ao protagonismo feminino nas arquibancadas e nas redes reflete barreiras que ainda persistem nas estruturas das torcidas organizadas. Apesar do nítido crescimento da presença feminina nos estádios, a ascensão a cargos de liderança ainda é um processo nas torcidas organizadas do São Paulo.
As diferentes formas de enxergar a presença feminina também aparecem na maneira como cada organizada se comunica nas redes sociais. No Instagram, a Torcida Independente soma 822 mil seguidores, com mais de 5 mil publicações e segue com apenas 31 perfis. Na descrição, a organizada se define com o slogan “O respeito que impomos define quem somos”.
Os destaques do perfil, quando visualizados em sequência, formam a frase “A maior torcida tricolor do Brasil”, reforçando o posicionamento institucional da organizada nas redes sociais.
— Ainda é muito pouco, demos um passo muito pequeno. Mas se você olhar para o Brasil como um todo, quantas governadoras ou prefeitas temos? É muito difícil avançar no mundo da torcida quando não conseguimos avançar na sociedade como um todo (Jéssica)
Durante o mês de março de 2026, a maior parte do conteúdo tem caráter institucional, com convites para transmissões de jogos no telão da sede, divulgação de pré-venda de produtos e organização de caravanas para partidas. As imagens publicadas se concentram, principalmente, em registros da sede e do estádio, frequentemente com grande presença de torcedores.
Não foi identificada nenhuma publicação voltada especificamente ao público feminino - mesmo a Independente sendo considerada a maior torcida organizada tricolor.
Já no Instagram, a Dragões da Real soma cerca de 350 mil seguidores, com mais de 5,6 mil publicações. A análise foi realizada considerando as postagens feitas ao longo do mês de março.
O mês já se inicia com conteúdos voltados à valorização institucional, como a divulgação da nova sede e a presença de personalidades ligadas ao clube, como o ex-jogador Leandro Guerreiro e o ex-volante Denilson.
Ainda em março, a organizada publicou conteúdos voltados ao engajamento da arquibancada, como a divulgação de cantos da torcida. Diferente de outras organizadas, a Dragões também apresentou conteúdos que destacam a presença feminina.
No dia 8 de março, foi publicada uma homenagem ao Dia Internacional das Mulheres, com a mensagem: “A arquibancada também é delas”.
Além disso, ao longo do mês, é recorrente a presença de mulheres nos registros fotográficos, tanto no estádio quanto na nova sede da torcida. Esse protagonismo também aparece na divulgação de produtos: o último post de março, por exemplo, promove artigos femininos da organizada, com mulheres posando no estádio do Morumbis. Os conteúdos publicados ainda incluem registros de jogos, momentos na arquibancada e postagens voltadas ao patrimônio da torcida.
BARREIRA INVISÍVEL
Assim surgiram as organizações 100% femininas, como o São pra Elas, que transformou a forma como muitas mulheres vão ao estádio. A mestra em Ciências pela USP, trabalha como pesquisadora no Sesc CPF e torcedora fanática do São Paulo, Gabriela Borges Sebastião, de 40 anos, possui uma perspectiva analítica sobre essas organizações: embora veja necessidade nesses grupos, ela enxerga objetivos distintos para sua existência.
— A torcida organizada e gerida por mulheres pode oferecer um caminho que, hoje, parece automático para os homens, que frequentam esse ambiente desde os nove anos. Para eles é fácil: vão sozinhos e encontram os parceiros. A mulher poderia ter isso, mas a maior parte não tem; muitas deixam de frequentar o estádio porque nem sabem por onde começar (Gabriela)
Assim como o coletivo As de Preto, do Corinthians, o movimento São pra Elas surgiu em 2017, motivado pela escassez de materiais esportivos voltados para o público feminino, como camisetas e calças. O movimento ganhou força nas redes sociais e hoje reúne cerca de 300 mulheres.
Eliza, também conhecida como Liz, é funcionária pública, mora no interior de São Paulo e conheceu o São pra Elas após assistir a uma reportagem sobre o movimento. Foi por meio do coletivo que ela passou a frequentar os estádios, indo ao Morumbis pela primeira vez acompanhada de outras mulheres do grupo.
Já Gabriela é professora e jornalista e se aproximou do São pra Elas em 2020, enquanto pesquisava movimentos femininos no futebol para o Trabalho de Conclusão de Curso
Apesar da forte ligação com o São Paulo, nenhuma das duas participa de torcidas organizadas, já que consideram esses espaços ainda muito machistas, com pouca representatividade feminina em cargos de liderança e atitudes que muitas vezes afastam as mulheres das arquibancadas.
— Se eles pudessem escolher, não haveria nenhuma mulher [no estádio]. Eu costumo dizer que, em vez de querer mudar o mundo, primeiro temos que mudar o que está ao nosso redor. E eles não mudam (Liz)




É para preencher essa lacuna que o São pra elas existe. O movimento busca ajudar, aproximar e normalizar a presença feminina nas arquibancadas tricolores. Atualmente, a organização é administrada por mulheres como Eliza Geroto e Gabriela Pereira Gomes da Silva.

— A gente sabe que mulher não balança bandeirão, dificilmente a gente vai ver uma menina no meio da bateria na arquibancada. São vários pontos que eles consideram de importância, além da questão organizacional, e a gente também não é permitido de estar envolvida (Gabriela)
Reprodução: Acervo pessoal São pra Elas
O LEGADO
Um traço comum entre as torcedoras são paulinas entrevistadas na reportagem é a dualidade de sentimentos ao transmitir a paixão aos filhos: de um lado, o orgulho da herança tricolor; de outro, o receio de que o ambiente das arquibancadas possa expô-los a situações de risco.
— A melhor herança que meus pais me deram foi uma vida de amor ao São Paulo, e isso inclui a Dragões [da Real]. Mas, ao mesmo tempo, sou mãe de homens. Por mais irônico que pareça, se eu fosse mãe de uma menina, talvez sentisse mais tranquilidade em levá-la para a torcida organizada. Para os homens, sabemos qual é o caminho mais 'lógico', o mais óbvio
(Karol Rodriguez)
— Quando tem filha mulher, você vai passar paixão, mas se é um filho homem e você já apresenta esse mundo, às vezes rola um medinho do que ele possa querer se transformar ali dentro ou não
(Gabriela Borges)
Por outro lado, os integrantes das torcidas organizadas formam um grupo que desperta emoções para além das quatro linhas. A filosofia interna dessas torcidas revela uma dualidade: de um lado, o aspecto conflituoso e a violência; de outro, o sentido de apoio e pertencimento. Tal fenômeno é explicado pela psicologia e pela neurociência como uma questão de identidade, em que o clube deixa de ser apenas uma preferência esportiva para se tornar uma extensão do próprio "eu".
Mãe de dois filhos, Karol também transmite essa relação para dentro de casa. O caçula, nascido em Janeiro de 2026, visitou o estádio pelo menos duas vezes antes mesmo de completar seis meses de vida.
— Muita gente de fora diz que sou maluca, mas eu sei onde estou pisando. Sei com quem estou, quem está ao meu lado e o que estou fazendo; sei o que fazer e o que não fazer. Então, enquanto estou carregando, fico tranquila. Só não sei como será o dia de amanhã, quando eles tiverem que caminhar sozinhos (Karol)
Jéssica conta que seu filho de 13 anos frequenta as arquibancadas com a Independente desde bebê. Para ela, essa vivência reforça um profundo sentimento de identidade e acolhimento:
— Tudo isso faz eu me sentir muito pertencente. Hoje eu tenho um filho de 13 anos que faz parte da torcida e frequenta o estádio desde antes de nascer. Ninguém tira o lugar dele; é o nosso lugar de descanso. Aqui, os problemas ficam menores. A arquibancada é meu refúgio (Jéssica)
Para a são paulina, a arquibancada é muito mais do que um setor de assentos; é um território de conquista. Seja em qualquer um dos movimentos citados ao longo do texto, a presença feminina reconfigurou a identidade das torcidas organizadas, transformando o "lugar de mulher" em todo e qualquer espaço do Morumbis.
Embora as barreiras invisíveis do preconceito e a baixa representatividade em cargos de liderança ainda persistam como reflexos de uma sociedade desigual, vozes como as de Karol, Jéssica, Liz e Gabriela provam que a resistência é inerente ao ato de torcer. Elas transformaram dores em vlogs, críticas em podcasts e a exclusão em redes de apoio, garantindo que a nova geração de torcedores herde não apenas a paixão pelo São Paulo FC, mas a coragem de ocupar seus espaços.
No fim, independentemente das diferentes visões e propósitos de cada agrupamento, a essência permanece inalterada e a ideia de que o lugar de mulher é na arquibancada fica cada vez mais forte.